Cinema na lagoa Mundaú

AUV Coqueiro Seco 2

“Acenda uma vela” em COQUEIRO SECO
Dia 21.03.2013

Relato do evento . Coqueiro Seco . Alagoas .
Por Hermano Figueiredo

Estranho nome para uma cidade com tanta água, onde todos os coqueiros são verdes. Nunca tinha visto Maceió da outra margem da lagoa. Vigiada do alto pela Igreja de Nossa Senhora, mãe daqueles homens conhecedores dos caminhos do vento e das águas da lagoa. Onde as tardes têm um jeito demorado de se fazer noite. Chegamos lá pelo povoado do Cadoz, onde uma gente simples mora e trabalha entre duas margens: a da estrada de terra que liga Coqueiro Seco à rodovia, e a outra, próxima do canal que liga a Lagoa Mundaú à Manguaba. O primeiro som  é do peneirar dos massunins, depois de escaldados para separá-los de suas conchas, que formam vários montes ao serem descartadas. Mais à frente, o sururu  é desalojado de sua casca pelo mesmo processo. Embaixo de uma árvore, mulheres com bacias de plástico colorido no colo, com pequenas facas, e grande destreza, extraem a carne do caranguejo, escassa, porém saborosa. Uma igreja foi erguida no meio da mata atlântica para Nossa Senhora dos Remédios, por devoção de gente remota e fidalga. Na orla da cidade de Coqueiro Seco há uma espécie de píer; o prédio da prefeitura; um bar; um restaurante; e uma capela, que preferem chamar de Igrejinha de São Pedro, ao lado da colônia dos seus devotos pescadores. Foi bem ali, na frente, numa rara faixa de areia à guisa de praia, onde se joga futebol, o lugar que escolhemos para o evento do “Acenda uma Vela”.

A primeira providência para o evento era localizar um barco à vela. Chegamos ao pequeno estaleiro do Seu Zizo e seus filhos, lugar onde nasceram e nascem a maior parte das barcas e canoas, que navegam pelas lagoas. Canoas com alma de árvores, pintadas em cores vivas. Fomos recebidos com simpatia, e concordaram em apoiar o projeto. Mostramos impressos com fotografias dos eventos, doamos adesivos e ficaram animados. Um dos filhos do seu Zizo, que atende pela alcunha de Magaive, fez do seu próprio celular contato com o Secretário de Cultura. Em rápidos contatos telefônicos, tanto nesta tarde como na manhã seguinte, a produção garantiu que a prefeitura nos desse apoio na divulgação, alimentação da  equipe e ainda nos deram informações sobre os principais artesãos e lideranças de cultura popular.

No dia seguinte,  já estávamos gravando uma entrevista com a Lucimar, liderança do grupo de chegança, e também filmamos outras pessoas, e a paisagem local. No Dia da exibição logo pela manhã fomos ao estaleiro. Os filhos do Seu Zizo fizeram o procedimento de amarrar a nossa vela branca a um mastro. Descemos até a lagoa para fixar a vela na canoa de cores amarelo e vermelho, que usaram com extrema habilidade para conduzi-la em velocidade sobre as águas por cerca de 2km até o local da exibição. A dona Lucimar nos cedeu a casa , que serviu de base para a nossa produção nesses dias em Coqueiro Seco.

Enquanto fechávamos a edição do filme de registro do local, avistamos quatro senhores sentados embaixo de uma árvore, jogando dominó. O sol ia declinando, dando cores novas à lagoa, à cidade, e às pessoas entregues ao seu cotidiano. O restante da equipe chegou e fotografou as últimas horas do dia. O futebol, que era jogado na areia, alheio à vela aberta, acabou mais cedo para a preparação da exibição.

O público compareceu em bom número à orla lagunar, para a sessão do “Acenda uma Vela” que, após a exibição dos primeiros filmes, abriu espaço para apresentação do grupo de chegança local. Esse se apresentou ainda sob a emoção do depoimento de sua principal liderança já falecida, a Mestra Maria Luiza que viram sendo exibido na vela-tela. Retomando a exibição, o público gostou de se reconhecer nas fotos e no curta exibidos. Mas também se identificaram com os personagens do curta “Um vestido para Lia”, que teve como locação o povoado da Massagueira a cinco km dali, á margem da mesma lagoa. Riram muito com a comédia “Desalmada e atrevida” de Pedro da Rocha — filme que tem sido exibido com sucesso garantido em quase todos os eventos. O público seguiu apreciando tudo com um misto contraditório
de identificação e estranhamento em ver e ouvir o seu próprio sotaque, falas e jeitos em obras audiovisuais.

O “Acenda Uma Vela” tem o  patrocínio do  Banco do Nordeste do Brasil, em parceria com o BNDES, Governo Federal. O projeto é realizado pela Ideário, que conta com o apoio da Algas, Gás de Alagoas S.A. e do IZP, Instituo Zumbi dos Palmares.

Fotografias: Alice Jardim e Vanessa Lima.
Texto Relato: Hermano Figueiredo.
Edição final: Regina Barbosa

 

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