OLHAR E VER

Foto Lulla Castelo Branco - hermano periferia maceio

OLHAR E VER em Fernão velho, Maceió-AL
No bairro de Fernão Velho, surgido a partir de uma vila operária outrora mantida pela fábrica de tecidos, foi exibido o filme “Memória e vida do trabalho”, documentário dirigido por Celso Brandão, uma peça de pano produzida na fábrica serviu de tela para as imagens feitas há 20 anos atrás. Cerca de 500 pessoas tiveram uma reação eufórica ao ver imagens do seu próprio bairro e de sua própria gente, relatos da luta sindical e manifestações de cultura popular.

OLHAR E VER NO CAMPUS, em Maceió-AL
Alguns dos momentos mais gratificantes para o Olhar e Ver foi a interação com o meio acadêmico na UFAL (Universidade Federal de Alagoas). Um dia intervimos num debate pra dizer que ao contrário do que pensam alguns estudantes e até professores, a função da universidade pública não é produzir profissionais para o mercado e sim produzir ciência e consciência para fazermos humanidade. Como faz humanidade, o cinema que interagiu ali num trabalho inter e multi e, por vezes, transdisciplinar, levamos um cinema que fala nossa língua, re (vê) lê a nossa história, discute a nossa contemporaneidade e traduz aspectos de nossa cultura.

OLHAR E VER nas velas de jangadas
Na praia da Garça Torta, um público eclético: pescadores, professores universitários, ¨bichos grilos¨ e estudantes apreciaram uma mostra também eclética, com os filmes: “Heleno e Garrincha”, o episódio “Pisada de elefante” do filme ¨Veja esta canção¨, de Cacá Diegues, ¨São Luis Caleidoscópio¨, de Hermano Figueiredo, ¨A Matadeira¨, de Jorge Furtado e ¨Por longos dias¨, de Mauro Giuntini.

Uma impassível lua cheia dava uma de lanterninha. Na vela/tela : beijo na boca, transa, gol, violência, organização popular, alegria e morte… A imensa e contraditória vida brasileira, matéria-prima do nosso cinema.

Na praia da Garça Torta, numa outra sessão, ao exibir o filme “A Jangada” de  Roland Henze, filmado no litoral cearense, tendo como tela a vela de uma jangada da praia alagoana de Garça Torta, os pescadores, alguns dos quais vêem o cinema pela primeira vez, a principio olharam incrédulos; depois encantados; depois orgulhosos ficavam acrescentando comentários ao que se passava no filme.

OLHAR E VER na beira do Rio São Francisco, usando panos de embarcações
Em Piaçabuçu, última cidade que vê o São Francisco antes de desembocar no mar, ali onde ele passa largo, caudaloso e silencioso passamos filmes em dezembro de 2003. As velas quadradas em estilo holandês são chamadas de borboletas . E foi por uma borboleta branca que procurei naquela rua que parecia praça, com seus banquinhos de cimento. Logo mais a noite, a tela era um porto virtual onde chegou notícias e histórias de outras partes do Brasil. Gostaram de ver “São Luis Caleidoscópio”, numa viagem poética a cultura maranhense e à cidade de São Luis, e o episódio Você é linda, do filme “Veja esta canção”, de Cacá Diegues, que filmou ali “Deus é brasileiro” e estavam presentes na platéia alguns participantes do filme.
Diferentes das velas do litoral, no Baixo São Francisco os chamados panos das embarcações são quadrados, no estilo holandês, em Piaçabuçu, última cidade que se avista do rio no seu caminho para o mar. Chamam-nas também de borboletas.
Azuis, lilases, amarelo com marrom Verde fosforescente
Incertas ao vento Borboletas de pau e pano
Pousam e deslizam à flor do rio.

Mas, foi por borboletas brancas que procurei naquela rua que parece praça, com seus banquinhos embaixo das árvores, que parece quintal de casa, com lavadeiras de roupas e pratos e pessoas tomando banho com sabonete e shampoo, porto de canoas e barcos. Visão extasiante do rio que ali passa largo, caudaloso e silencioso. Naquele dia a melhor vela branca que encontrei não estava tão branca, mas conversei com o dono que concordou em amarrar o seu barco para que não se mexesse muito.
Foi quando comecei a ajustar o projetor, testar a distância do foco, tamanho do quadro, entre outros preparatórios para exibição, que chegou outro pescador que me ouviu falar da precária brancura e do tamanho da vela. E aí disponibilizou a sua própria vela, que segundo ele era melhor que a do outro. Os dois discutiram até que o outro cedeu e ele foi buscar a sua vela. Após 15 minutos de espera, ele surgiu e a vela, acreditem! Era ainda mais suja e, embora maior, tinha um rasgão na parte inferior. Como a outra já tinha ido embora, foi o jeito aceitar a generosa oferta. Esse processo todo chamou a atenção do público que já aguardava impaciente o inusitado evento.
Mas não foi tão simples o ajuste da vela à direção do foco do projetor. Tentando trazê-la mais para um lado. O pescador desequilibrou-se e caiu com vela e tudo, virando a pequena embarcação. Os outros acudiram, levantaram a vela, desviraram o barco e por fim posicionaram e amararam a embarcação e logo depois, anunciei a programação. A luz colorida do primeiro filme tocava a quase brancura da vela e o pescador era agora um molhado e orgulhoso espectador.
Logo mais a tela era um porto virtual por onde chegou notícias e histórias de outras partes do Brasil. Gostaram de ver “São Luis Caleidoscópio”, numa viagem poética a cultura maranhense e à cidade de São Luis, e o episódio Você é linda, do filme “Veja esta canção”, de Cacá Diegues, que filmou ali “Deus é brasileiro” e estavam presentes na platéia alguns participantes do filme.

Cinema nas barrigas

PatrocínioMinistério da Cultura – Fundo Nacional de Cultura
Parcerias:
SESC/AL – Serviço Social do Comércio
UFAL – Universidade Federal de Alagoas
Sindicato dos Trabalhadores de Fiação de Fernão Velho
Associação Olha o Chico

Fotos: Lula Castello Branco e Ricardo Ledo